Quando os primeiros descendentes de italianos chegaram à região central de Goiás, no início do século passado, talvez não imaginassem que suas receitas de família, suas músicas e sua devoção religiosa atravessariam gerações até transformar uma pequena cidade do interior em um dos principais destinos gastronômicos do Centro-Oeste brasileiro.
Hoje, Nova Veneza, município de menos de 10 mil habitantes a cerca de 30 quilômetros de Goiânia, se prepara para viver mais um daqueles dias em que a cidade parece mudar de escala. Ruas decoradas, mesas ocupando quarteirões inteiros, cheiro de molho fresco no ar, acordeons ecoando pelas praças e milhares de pessoas dividindo taças de vinho sob bandeirolas inspiradas nas vinícolas italianas.
Entre os dias 28 e 31 de maio, o Festival Italiano de Nova Veneza celebra sua 20ª edição consolidado como patrimônio cultural imaterial de Goiás e como um fenômeno raro: uma festa comunitária que cresceu sem perder o sotaque afetivo das origens.
Neste ano, o tema escolhido “Brindiamo Storia e Sapori” (“Brindando História e Sabores”), resume bem o espírito da comemoração. Mais do que uma edição festiva, a proposta é revisitar memórias, homenagear os imigrantes que ajudaram a formar a cidade e reforçar o vínculo entre tradição e pertencimento.

Pela primeira vez, o evento terá um rótulo próprio: o Veneza 1924 Cabernet Sauvignon, produzido na Serra Gaúcha exclusivamente para o festival e lançado em edição limitada. A bebida inspirou parte da cenografia espalhada pelo circuito da festa e aparece como fio condutor da experiência proposta ao público.
Na cultura italiana, o vinho ocupa um lugar que vai muito além da bebida. Ele representa encontro, celebração, família e permanência. Em Nova Veneza, onde muitos moradores ainda preservam sobrenomes, expressões e receitas herdadas dos antepassados, a escolha do tema carrega também um valor simbólico.
A tradição estará presente até mesmo na programação cultural. Um dos momentos mais aguardados será a pisa da uva, prática ancestral ligada à produção artesanal do vinho e que será reproduzida durante o festival com participação do público.
No palco principal, a programação mistura referências italianas e goianas numa composição que ajuda a explicar o sucesso da festa ao longo de duas décadas.
O cantor Leonardo será responsável pela abertura oficial do evento. Já a cantora Laura Dalmás, conhecida pelas apresentações no Natal Luz de Gramado e pela passagem no “The Voice Brasil”, leva ao festival um repertório dedicado à música italiana e à herança ítalo-brasileira.
Entre as estreias desta edição está a Banda Cavatappi, do Rio Grande do Sul, que aposta em uma sonoridade construída a partir do diálogo entre acordeon e bandolim napolitano. Também sobem ao palco Banda Santa Fé, Banda Brizza e Naiara Azevedo, além de artistas já tradicionais da cidade, como os Tenores de Nova Veneza, Ana Paula Drigo, Valdir Amaral e os corais Amici di Veneza e Vocini di Veneza.
Mas é na gastronomia que o festival encontra sua identidade mais poderosa.
Durante quatro dias, a cidade praticamente se transforma em uma grande cantina a céu aberto. Famílias inteiras trabalham na produção dos pratos, cozinhas improvisadas funcionam sem pausa e receitas transmitidas entre gerações ganham protagonismo diante de milhares de visitantes.
A Cantina da Nonna, cozinha oficial do evento, terá neste ano 31 opções no cardápio, entre massas artesanais, lasanhas, nhoques, molhos, polentas e porpetas.
Entre as novidades está o Amaretti, tradicional biscoito italiano de origem lombarda preparado com açúcar, clara de ovos e amêndoas doces. A receita ganhou adaptação para o paladar brasileiro, mas preserva a delicadeza característica do doce europeu.
Com expectativa de receber cerca de 150 mil visitantes número semelhante ao registrado em 2025, a organização ampliou o espaço do circuito gastronômico e aumentou o número de mesas e cadeiras disponíveis ao público.
Pela primeira vez, haverá estacionamento gratuito a cerca de 100 metros da entrada principal, para quem chega pela GO-462, via Santo Antônio de Goiás.
A experiência digital também passou a fazer parte da festa. A Cantina da Nonna contará com 20 totens de autoatendimento espalhados pelo espaço para reduzir filas e agilizar pedidos.
Outra mudança está nos sanitários. Três novos módulos VIP foram adicionados à estrutura construída no ano passado, totalizando mais de 30 banheiros com padrão semelhante ao de centros comerciais.
Ao todo, cerca de 90 expositores participarão da edição comemorativa, reunindo desde produtores artesanais de massas e pizzas até operações especializadas em risotos, carnes defumadas, queijos e doces típicos.
Apesar da dimensão alcançada, o festival ainda preserva cenas que ajudam a explicar sua força emocional.
Senhoras preparando molho como faziam as avós italianas. Crianças correndo entre as mesas enquanto famílias inteiras dividem garrafas de vinho. Moradores que abrem as próprias casas para receber parentes e turistas durante os dias da festa.
Fundada oficialmente em 1924 por descendentes de imigrantes italianos que chegaram à região em 1912, a cidade construiu sua identidade em torno dessa herança cultural. O festival nasceu em 2003 de maneira modesta, organizado por moradores que queriam preservar costumes e fortalecer o turismo local.
Vinte anos depois, tornou-se um dos eventos mais importantes do calendário cultural goiano.
Mais do que números, recordes de público ou impacto econômico, o Festival Italiano de Nova Veneza consolidou algo mais raro: a capacidade de manter viva uma tradição sem transformá-la apenas em espetáculo.
No interior de Goiás, em pleno Cerrado brasileiro, a Itália encontrou um segundo lar.
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